Imóveis, vinícolas e obras de arte entram no portfólio

No filme “Um bom ano”, lançado em 2006, o banqueiro londrino Max Skinner, interpretado pelo ator Russell Crowe, herda um vinhedo na Provença (França) e seu primeiro ímpeto é se desfazer do negócio. Na vida real, se Max Skinner fosse assessorado pela área de negócios não financeiros de seu banco, o roteiro teria outro rumo. Ele chegaria à Provença com relatórios sofisticados sobre viabilidade econômica da vinícola e abreviaria a decisão de manter o negócio no seu portfólio.

Destinada a clientes com patrimônio total acima de US$ 25 milhões, as áreas de negócios não financeiros de bancos estão estruturadas internacionalmente há décadas na Europa e nos EUA. No Brasil, a oferta desses serviços vem ganhando expressão nos últimos sete anos.

Embora muito focada no segmento imobiliário (real estate), as instituições que atuam no Brasil trazem experiências internacionais para assessorar o cliente private a buscar boas oportunidades também em vinícolas, obras de arte e operações envolvendo fusões e aquisições no varejo e na indústria. Cesar Chicayban, vice-presidente do Citi Private Bank no Brasil, diz que o investidor está mais bem informado e sofisticado nas suas escolhas. “Na tendência de internacionalização, ele divide o patrimônio entre ativos financeiros e não financeiros”, afirma.

De acordo com Chicayban, o Citi criou, há dez anos, uma área focada em private equity e real estate, com 18 profissionais atuando em Nova York, Londres e Hong Kong. Um dos negócios mapeados foi a operação de private equity na incorporação da torre 432 Park Avenue, em Nova York.

Desde 2007, o Santander vem investindo globalmente no segmento imobiliário focado nos EUA, no México e na Europa. Roberto Funaro, superintendente executivo do private banking do Santander no Brasil, explica que as equipes globais identificam oportunidades para que o cliente compre um ativo real e se beneficie com um contrato de longo prazo e geração de renda.

Funaro diz que, no segmento private no Brasil, desde 2010, há uma equipe de advogados focados em prestar consultoria para planejar sucessão familiar e relacionamento entre a estrutura organizacional da empresa e da família. “Esse time trabalha sem custos para o cliente. Ao deixar essas estruturas bem organizadas, favorecemos o relacionamento de longo prazo com o banco”, detalha Funaro.

Diante da complexidade em torno da sucessão familiar, o Santander criou em 2010 um programa destinado aos herdeiros dos clientes private. Funaro comenta que o banco seleciona grupos para passar cinco dias em escolas de negócios nos EUA e na Europa. Eles seguem uma programação de encontros sobre empreendedorismo, visão de família nas empresas, planejamento de negócios e sucessão. Há ainda um encontro anual de três dias para uma imersão local, realizado em São Paulo.

João Albino Winkelmann, diretor do Bradesco Private, diz que há três anos o banco mantém uma equipe com dez pessoas voltadas para atender demandas do cliente private em assuntos como assessoria fiscal, tributária e planejamento sucessório. “Esse tipo de consultoria, sem custos, traz um valor que transcende o valor financeiro para a família”, diz.

O BNP Paribas, que oferece assessoria de investimentos imobiliários com foco na Europa para o segmento private, criou há dois anos uma área específica para identificar negócios em vinícolas. “Por enquanto, estamos concentrados em vinícolas na França. O próximo passo é expandir para vinícolas na Itália. Temos um time focado em pesquisar a viabilidade econômica e a qualidade de propriedades”, afirma Mauro Rached, diretor da área de wealth management do BNP Paribas Brasil.

Os clientes do segmento private do BNP Paribas contam com um serviço exclusivo, e sem custos, para consultoria em projetos de filantropia e negociação com obras de arte. “No Brasil, o cliente tem buscado mais informações sobre os relatórios de filantropia que geramos. No segmento de arte, ele conta com assessoria especializada para participar de leilões, montar uma coleção particular e identificar melhores oportunidades em arte clássica e moderna do século XX”, detalha.

Em um cenário de queda da taxa básica de juros (Selic), os investimentos em ativos imobiliários avançam na preferência do investidor do segmento private no Brasil. Claudia Martinez, diretora do Banco Máxima, que é focado em crédito imobiliário, afirma que, após um choque de preços muito grande e uma recessão no segmento, o ativo imobiliário volta a ser atraente. “A vacância está caindo. De modo geral já há uma recuperação.”

Por Suzana Liskauskas | Jornal Valor Econômico – 26/10/2017